O velho mapa da situação fiscal dos Estados Unidos tem sido cravejado de curvas inesperadas, e a última atualização mostra o défice orçamental da maior economia mundial a ultrapassar os dois biliões de dólares, atingindo 6,25 % do Produto Interno Bruto. Esse salto de 12 % num único ano parece simbiótico com as decisões de reembolso das tarifas impostas pelo governo anterior de Donald J. Trump, que, segundo o Secretário do Tesouro Scott Bessent, foram consideradas ilegais pelos tribunais. O número, embora abstrato num sentido euro‑padrão com outras potências, traz à tona uma série de questões que vão além do mero cálculo administrativo.
Para compreender a magnitude do défice, é preciso desmembrar a narrativa financeira que levou os EUA a esta pontuação alarmante. A pandemia de COVID‑19 forçou um programa de estímulo robusto que, em parte, foi desvanecido pelo aumento dos custos de empréstimo emergentes. Contudo, não há dúvidas de que a decisão de reembolsar as tarifas de ovos, soja e aço – tratadas anteriormente como proteção, mas hoje definidas como contravenção à ordem jurídica internacional – não só dilapidou recursos que poderiam ser canalizados para a recuperação económica como também alterou o perfil de despesa de forma imprevisível.
Bessent, em entrevista coletiva na última semana, sublinhou que os “reembolsos foram, em última instância, um golpe na amortização de credibilidade institucional”, alegando que o cenário legal delineado pelo Tribunal Federal de Nova Iorque – onde a legitimidade das tarifas foi refutada – obrigou a administração a devolver montantes significativos. A devolução, que totalizou mais de uma casa de câmbio de miliões de dólares, ecoa diretamente no balanço da dívida pública, numa liquidação que vem dobrar a taxa de crescimento da despesa total. Este facto lança sombra sobre a viabilidade de um governo que, em vez de reprimir perigosos desequilíbrios, acaba por alimentá‑los de forma automatizada.
Além do impacto direto nas contas públicas, a matéria tem reverberações num espectro mais amplo. A retirada de proteções tarifárias, notadamente para o sector agrícola brasileiro, compromete subsidios específicos e promessas de apoio a agricultores que dependem de miríades de doações governamentais. O que inicialmente parecia uma condução a um “prateamento” de comércio liberal, acaba por exigir transferências de facto de recursos de setores destinados a proteger fronteiras internas. Assim, a lógica política da reciclagem do orçamento se conflita com a praticidade de uma economia que se movia de mãos livres.
No contexto do PIB, o facto de 6,25 % do produto que está comprometido sob forma de déficit implica não só um enorme escalo que monoceros, mas também a necessidade de elevar as taxas de juros para atrair investidores capazes de financiar a dívida crescente. A pegada de dólar, longe de ser estável, tende a sujar com o espectro de incertezas eleitorais. Se a credibilidade do país for implicada, os mercados podem exigir um prêmio de risco maior, fato que, por sua vez, eleva os custos das despesas futuras e, em um círculo vicioso, afasta ainda mais a estabilidade macroeconómica que, já, está à beira da chamada “crise de estabilização”.
A crise federal contemporânea, além de refletir num simple balanço, traz um conjunto de inter-relações políticas. O Congresso, que historicamente mantém um rol de “deapego” perante ouçamentos de larga escala, tem agora que calcular não só a relação do défice, mas também a distribuição da carga de imposto entre exploração de recursos públicos e a regulação de futuros impulsos. As medidas definidas pelos representantes de ambos os partidos assumem novos contornos, pois a apenas mais do que dois miliões de dólares de reembolsos foram, de facto, um golpe na rendição de responsabilidade institucional, segundo Bessent.
Do outro lado, o mercado internacional percebe esse salto como um evento de mudança nas relações comerciais. A tensibilidade de negociações bilaterais, sobretudo com parceiros europeus, torna-se mais difícil, pois na configuração atual, os EUA mostraram estar agrados a um reembolso de tarifas que, de facto, tem origem em alguma faculdade independent

